Quando embarquei para vir morar na Austrália eu tinha dois grandes objetivos em relação a conhecer lugares. Réveillon em Sydney (✓done) e nadar na Grande Barreira de Corais (✓done as well). A Austrália é muito além disso, mas esses eram meus desejos e não consegui sossegar até cumprir ambos.
Consegui uma promoção incrível de passagem aérea para Cairns e convidei uma amiga para viajar comigo. Obviamente apenas depois de comprar a passagem que fui pesquisar e descobrir que estamos na temporada das águas-vivas mortais e de chuva em Cairns. Para sorte minha e da Lorena fizeram dias lindos e só vi chuva à noite, já de pijaminha para dormir.
Cairns é uma cidade pequena de 120 mil habitantes que basicamente vive em função da Great Barrier Reef e o turismo em torna dela. No centrinho basicamente só se encontra agências de tours vendendo os mesmos pacotes pelo mesmo preço. Eu já tinha o contato de uma agência e fui direta nela. A mulher conseguiu me convencer a não fazer scuba diving e comprar apenas snorkeling, o que até agora não sei se me arrependi ou não.
Os pacotes de um dia de passeio no reef são à partir de 99 dólares. O valor vai subindo conforme a localização do reef, os passeios inclusos e o barco. Comprei um caro do barco Tusa Dive 66 e apenas snorkeling. Eu não sou bom nadador, tenho pavor de nadar onde não alcanço o chão com os pés. O oceano, como eu bem sabia, é mais fundo que a piscina de casa. Já em alto mar depois de mais de uma hora navegando o barco parou, recebi as instruções de como fazer snorkeling (inclusive fui avisado caso eu encontrasse tubarões eu não deveria me preocupar porque ele são “like a puppies”) e eu perguntei para o instrutor “Ok e quando vamos chegar à grande barreira de corais?”. Ele disse que já estávamos lá! Eu imaginava um mar azul clarinho e que do barco eu poderia ver grãos de areia no fundo do mar. Não era o caso, a água estava escura e não era possível ver nada. Eu insisti dizendo que eu me sentia na Praia Grande e não em Cairns, ele me respondeu que o dia estava nublado e por isso só era possível ver de dentro da água. Calcei meu pé de pato, avisei que se eu começasse a me debater na água que pelo amor de Deus me resgatassem imediatamente, peguei um macarrão que flutua por precaução e me joguei! Primeiramente eu não afundei! E sim, o instrutor estava coberto de razão, a água era imaculada, totalmente transparente e eu pude me maravilhar com um novo mundo. Centenas de peixes multicoloridos e de diversos formatos nadando a centímetros de mim e uma floresta de corais logo embaixo dos meus pés de pato. Era tudo tão incrível, eu não me afogando ou afundando, os peixes nadando ao meu redor, a beleza dos corais, que quando dei por mim eu estava muito longe do barco. Nesse momento a síndrome do pânico veio dar o ar da graça, mas uma criança de 8 anos me ajudou... Tive problemas com meu equipamento, comecei a beber água e dar uma pequena afogadinha. Quem me acudiu? Jason, a criança de 8 anos que nadava 50x melhor do que eu.
Foi um passeio de um dia inteiro e duas paradas de mergulho, eu particularmente preferi o primeiro e aproveitei melhor o segundo, quando estava mais confiante (sem macarrão flutuador) e aprendi a respirar melhor pela boca. Mesmo no início do passeio, em que eu estava usando uma polêmica camisa floral e laranjona com um chapéu de pirata, minha beleza acima da média fez eu receber olhares do tipo “te quero!” dentro do barco. O mar todo para nadar e não é que vieram nadar e se esfregar na minha pessoa? Sério, às vezes preferiria ser feio (brinks! Nunca!). Eu estava lá apenas para procurar o Nemo, dar um beijo na Dory e abraçar uma tartaruga bem linda. Dory eu vi aos montes, já o famoso peixe-palhaço eu não vi exatamente o Nemo, mas um mais escurinho, não era tão laranja, igual minha camisa. Já tartaruga... Tive que me contentar em abraçar meu travesseiro mais tarde. Não vi uma sequer!
Não vou dizer que o passeio foi perfeito, pois eu me arrependi em não ter contratado o scuba diving. Não que quem fez scuba viu muito mais coisas do que eu, queria mesmo era pela experiência de fazer scuba. Contudo, não tenho certeza se eu conseguiria mergulhar, eu tenho medo que dê merda. Falando em merda, eu estava observando três peixões quando decidi fazer carinho em um, ao me aproximar um dos peixes fez coco! Um montão, era muito líquido com pedaços sólidos da cor marrom saindo de dentro dele. Achei nojento e nadei para longe. Também fui perseguido por uma criatura de menos de 2cm, não sei especificar que tipo de criatura, só sei que fiquei apavorado.
É altamente aconselhável não nadar nas praias de Cairns por dois grandes motivos: crocodilos de água salgada e água-viva mortal. Por isso, na cidade tem uma gigantesca piscina pública de água salgada e o calçadão beira-mar é na verdade um deck, para proteger os pedestres de possíveis ataques de crocodilos. A piscina é ótima! Super recomendo.
Outro passeio bacana é ir para Port Douglas, uma cidade a 70km de Cairns. Aluguei um carro e a viagem até Port Douglas por si só já é um tremendo passeio. A famosa Captain Cook Highway é uma linda rodovia, de um lado a rainforest e do outro praias. Paramos em algumas, uma delas estava totalmente deserta. A coisa mais linda, água cristalina, chão coberto por pedrinhas e muita paz. A água estava perfeita, quase abortamos a ideia de ir para Port Douglas.
Port Douglas nem é tudo isso, tivemos que nadar dentro de um cercadinho de rede que impede a entrada de água-viva e crocodilos. Almoçamos em um train sushi e pegamos estrada para explorar a rainforest. Chegamos em Mossman Gorge e sabíamos que ali havia um rio bem bonito. Achado o rio nos jogamos nele, descobrimos na prática que a correnteza era bem forte. Ela nos levou longe. Minha amiga que se dizia ótima nadadora foi salva por euzinho, que nem sei nadar direito. Ela, que não tem limites na água, queria porque queria descer de bunda de uma mini cachoeira, tipo tobogã. Observei o povo fazer isso, eram todos homens destemidos e bons nadadores. Aquela aventura não era para mim. Eis que um Pokémon (apelido carinhoso que chamo os asiáticos gordinhos, engraçados e com cara de virgem) estava se preparando para descer. Ele desceu e foi um sucesso. Embora, pensei, os Pokémons podem flutuar e são macios, logo são imunes a essas aventuras. Em seguida uma asiática amedrontada também fez a mesma loucura. Lorena, minha amiga, praticamente me obrigou a descer com ela. Só topei se fosse de mãos dadas. Depois de 5 minutos criando coragem e uma plateia se formando eu falei “Lore, segura. Nós vamos morrer!”. Aquele vídeo da Leila Lopes descreve tudo. Tudo girou, girou, nada mais vi, nada mais me lembro. Quando dei por mim eu já estava lá embaixo e VIVO! Eu nunca fiz uma loucura dessa no Brasil, por aqui na Austrália eu tive a péssima ideia de topar essa loucura? Não contente com o milagre da vida eu topei fazer de novo e desta vez sozinho. Não tive a mesma sorte, eu machuquei minha canela na descida da cachoeira, caí no fundo do rio, eu me afoguei, me debati, não consegui subir para a superfície, coloquei a cabeça para a fora, mas ainda estava morrendo e as pessoas estavam todas olhando, o Pokémon inclusive estava a 3 metros de mim e não moveu a bunda para me ajudar! Quando me agarrei numa pedra uma japonesa, outra desgramada que só viu minha desgraça, deu três tapinhas nas minhas costas “Are you ok?”; Eu estaria melhor se alguém se tivesse me ajudado... Aquele lugar já tinha dado para mim, mas a Lorena queria tirar fotos antes de ir embora. Lá fui eu de novo entrar no rio. Combinei que subiria numa pedra no meio do rio e lá faria poses sensuais/vulgares. Não sei por que tive essa péssima ideia. A pedra era pequena, julguei que seria fácil subir nela. Eu dei um vexame em público. O que me afoguei para subir naquela maldita pedra é impossível descrever. Duas fortes correntezas passavam por cada lado da pedra. Quando eu agarrei a danada não quis mais soltá-la (não sou trouxa!), porém não tinha força para subir nela. Eu vi as fotos depois, todo mundo estava me olhando com cara de pena!!! Pior quando uma senhora de quase 60 anos foi até mim e disse “pode se soltar, a correnteza não vai te levar embora, meus netinhos estão brincando logo ali, podem te segurar.” Depois de muito custo subi na maldita pedra, nessa altura todo mundo estava me olhando, preferi abortar a ideia das poses sensuais. Minha amiga depois de se mijar de tanto rir tentou subir na mesma pedra e não conseguiu! Não era fácil! (apesar dos netos da senhora subirem e descerem a todo o momento).
Era 3 e tanto da tarde, a gente ainda queria pegar um barquinho no rio Daintree que é infestado de crocodilos gigantes, os mesmos que fogem para o mar. Chegamos 5 minutos depois que o último barco partia. Eu praticamente deixei uma lágrima escorrer de tanta decepção. Continuamos a dirigir em direção a Cape Tribulation e encontramos uma nova entrada para o rio. Lá ainda tinha um barco para partir. O dono era tipo o Crocodile Dundee, um australiano bem caipirão, roupa de explorador, sotaque fortíssimo e super gente fina. Ele explicou que naquele momento possivelmente não iríamos ver crocodilo, eles não gostam das águas do verão. Desta vez a decepção foi menor. Para quem quiser ver crocodilo a rodo pelos rios da rainforest o Dundee aconselha ir entre junho e agosto.
Outra coisa interessante a fazer é abrir o Tinder na cidade! Eu recebi alguns convites hilários, o melhor foi “dodging crocodiles”. Pensei, que porra é essa? Dicionário diz que dogde é esquivar ou coisa parecida. Perguntei o que era exatamente isso e eis a resposta: “Means trying not be eaten by crocodiles while we hunt mud crabs.” Pior que ainda quis me convencer que era seguro, que os pais e a irmãzinha de 10 anos iam juntos. E pra dizer bem a verdade só não topei porque o passeio seria no sábado e vim embora na quinta-feira! hahaha
Resumindo, quem vier para a Austrália aconselho passar 3 dias em Cairns. Não conheço uma pessoa que tenha se arrependido.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
sábado, 23 de agosto de 2014
O pum ético
Durante uma aula de Ética, na época da minha faculdade,
aconteceu um fato inesperado comigo.
Os alunos não gostavam muito dessa aula, achavam que era
bullshit. Eu também não via muita utilidade, apesar de que hoje sei a diferença
entre ética e moral de uma maneira cirúrgica por conta dessa disciplina. A
professora era bem simpática, falava muito da vida dela, até hoje eu me lembro
de que uma vez, em sua adolescência, em que ela foi para uma balada com uma
amiga e ao voltar juntas de madrugada, a amiga foi direto para a cama dormir,
enquanto ela foi tomar banho e tirar a maquiagem. Até hoje quando chego de
madrugada em casa eu me recordo dessa ocasião e me pergunto se outras pessoas
têm a mesma força de vontade da professora e tomam banho antes de dormir. Eu
durmo sujo mesmo e morro de medo de ser julgado por isso.
Voltando ao fato inesperado. Nesse dia os alunos estavam
impossíveis, não respeitando a aula e conversando em voz alta. Eu era um desses
malcriados. A professora se cansou e expulsou metade da sala de aula. Todos que
estavam ao meu redor foram expulsos, eu não. Possivelmente porque a professora
tinha grande apreço por mim. Após a expulsão eu me vi isolado na segunda
fileira, não havia ninguém perto de mim. Ainda assim deveria ter uns 25 alunos
dentro da sala. Finalmente a professora tinha uma plateia silenciosa e atenta.
Nesse momento as flatulências começaram a borbulhar dentro
de mim. Não dei corda, de forma não intencional desconsiderei o problema, como
se nada estivesse acontecendo dentro de mim. Até hoje eu me pergunto por que eu
fiz isso! Segundos após, de forma inconsciente, eu simplesmente levantei minha
nádega direita e soltei um pum! Não era qualquer pum, era um peido barulhento e
com respeitáveis decibéis! Tudo aconteceu tão rápido e inesperadamente, que
quando dei por mim, não tinha mais o que fazer.
Imediatamente algumas garotas
começaram a gargalhar aos berros, a professora, que estava a menos de 2 metros
de mim, já tinha interrompido a fala e me encarava muda e de olhos esbugalhados.
Era primeiro ano da faculdade e se eu ainda tivesse alguma
dignidade (digo isso porque eu me lembro que na primeira sexta-feira do ano
letivo todos os alunos foram ao bar juntos, eu bebi mais que devia, subi numa
mesa, tirei a roupa e falei mais do que devia. Então meus colegas de classe já
sabiam que não era o mais normal de todos), provavelmente ela teria ido para o
ralo pela eternidade.
Alguns alunos do fundão não ouviram a bufa e perguntaram o
que tinha acontecido para a professora ficar em silêncio enquanto algumas
pessoas riam até chorar. Eu me senti compelido a dizer a verdade, afinal de
contas eu estava na aula de Ética e não tinha como mentir ou culpar o
coleguinha do lado. Eu respondi de forma tímida “Eu soltei gases!”. Pronto, a
aula acabou definitivamente. As mesmas meninas que gargalhavam começaram a
passar mal de tanto rir e foram se recompor no toalete.
Apesar dessa história constrangedora esse acontecimento foi
um fato que caiu no esquecimento. Talvez seja porque eu tenho tantas histórias
constrangedoras, mas isso não vem ao caso no momento.
Por fim, a professora elogiou minha atitude e disse que
gases são naturais do ser humano e apesar
de muito barulhento, ele não foi fedido. Menos mal.
domingo, 10 de agosto de 2014
Pequeno tour espiritual
A busca pela elevação
espiritual talvez seja uma das metas mais almejadas pela humanidade. Há pessoas
que já nascem elevadas naturalmente, isto é, a religião já vem de berço de
forma hierárquica e sem questionamentos por parte dela. Se essa regra fosse
aplicada a mim eu seria um católico apostólico romano. Contudo, eu sou um
contestador por natureza. Meus ex-chefes bem sabem dessa minha característica.
Hoje eu não tenho nenhuma
religião, apenas acredito em Deus. Não sei mensurar seu poder e influência,
conquanto, prefiro apenas acreditar. Até chegar nesta conclusão eu já fiz um
pequeno tour espiritual.
Lembro-me que na escola eu
tive uma aula religiosa. Não estudei em colégio católico ou coisa parecida, mas
tive uma aula religiosa em algum momento da minha infância. Óbvio que não colaborei
e sacaneei. A professora pediu para que cada aluno desenhasse como imaginava a
aparência de Deus e depois tínhamos que explicar aos colegas de classe. Foi uma
chuva de Jesus Cristos. A criançada desenhou homens barbados, brancos e magros.
Eu desenhei uma grande mancha roxa escura, mais parecia uma visão de alguém que
usou algum alucinógeno. A professora, por sua vez, devia ser pedagoga e não soube
lidar comigo.
Pouco depois fui
matriculado na catequese. Meus pais são católicos, mas só vão à igreja em
casamento, batizado e missa de falecimento. Como todo bom católico, né? Por um
ano fui obrigado a ir à igreja todo domingo de manhã fazer aula e depois
assistir a “missa dos jovens” que era uma cantoria de mais de duas horas e eu
doido para chegar em casa e assistir o finalzinho da Fórmula 1. Fui coroinha
diversas vezes e nunca aprendi a fazer aquele sinal da cruz mais profissa, que
não é apenas em nome do Pai, do Filho e Espírito Santo. É um estratagema meio
ninja, o padre resmunga um monte de coisas e o pessoal fica se tocando o tronco
inteiro, fazendo uma cruz complexa. Enfim, até hoje não sei fazer esse negócio.
Tenho problemas com coordenação motora.
Depois que, aleluia,
terminei a catequese minha mãe quis me colocar na crisma. Até hoje não sei que
caralho é essa tal de crisma. Nunca topei continuar meus estudos litúrgicos.
Anos depois eu vi o padre da minha igreja no SPTV. Ele foi denunciado por
pedofilia, na casa dele, atrás da igreja, onde era proibido a entrada de
qualquer pessoa, ele mantinha, praticamente em cárcere privado, 3 adolescentes,
duas delas menores de idade, do interior do Paraná. Minha vizinha de parede era
uma beata louca, quando o padre safado foi preso ela fazia bolo para levar na
cadeia. Logo entrou um novo padre e a paróquia voltou ao normal, exceto por um
fato, eu não frequentava mais a igreja.
Como todo ser humano
desesperado, quando precisa de algum milagre, logo recorre a Deus. Eu queria
muito passar no vestibular da Federal de São Paulo e fazer o ensino médio lá.
Minha tia, outra beata, mas que nunca fez bolo para padre pedófilo, levou-me
até a igreja para eu pedir isso a Deus. Não contente, no final da missa, ela me
conduziu até o padre, esse tem a maior cara virgem do mundo, poderia muito bem
ser confundido com um otaku ou jogador de LOL, e pediu para ele abençoar meus
planos escolares. Resumo da ópera, não estudei o suficiente e não passei no
vestibular, que era super disputado. No ano seguinte eu tentei novamente e
passei. Mas, como tenho orgulho, não quis estudar lá, esnobei mesmo.
Passado um tempo eu fui
buscar novos sentidos religiosos. Por algum motivo imaginei que eu poderia me
tornar budista. Eu e uma amiga, a Chuchuzona (cata o apelido da minha amiga!),
fomos ao Templo Zulai. Eu olhava a monja careca e ficava me pergunta “Pra que
isso?”. Na época eu tinha cabelo verde limão florescente que brilhava no
escuro, por isso a observação sobre a careca dela. Não gostei muito não, não
conseguia me concentrar, aquela coisa de homens de um lado e mulheres do outro
não me agradava, a meditação não fluía e no final não podia comer carne. Fui
com a Chuchuzona mais algumas vezes, mas pulei fora. Budismo não era minha
praia, sou hiperativo demais.
Próxima descoberta foi o espiritismo sob a
ótica do Allan Kardec. Sempre tive medo de espíritos, então não fazia sentido
ir atrás justamente deles. Quem me levou foi outra tia minha. Eu achei mesmo o
prédio meio mal assombrado, até hoje quando passo na porta à noite eu olho para
o sótão a procura de alguma luz suspeita. Aquela coisa de tomar passe também é
meio estranho, todo mundo de branco na sala, com os braços estendidos e olhos
fechados. Quer dizer, exceto eu, óbvio que fico bem alerta querendo saber o que
vai acontecer na hora do passe. Para mim é a hora mais apropriada para o
espírito aparecer. Nunca vi um. Outro dia fui à Federação Espírita tomar passe,
minha amiga disse que seria bom, mas antes do passe rolou uma palestra e não é
que uma das mulheres que falou estava incorporada? Não acho que foi teatro, ela
parecia a menina pastora, mas falava com coerência. Como sempre tive medo
dessas coisas não daria certo eu frequentar centros espiritas, né? Quando eu
era menor eu me lembro de ter assistido na Sônia Abraão uma sensitiva que
explicou que os espíritos ficam alojados nos batentes das portas, por isso,
nunca fiquem parados embaixo de qualquer porta. Ela também ensinou que alguns
espíritos querem roubar nossa energia, para evitar isso basta tampar o umbigo
com fita isolante ou com o dedo mesmo. Quando eu sinto uma energia estranha a
primeira que faço é colocar o dedão em cima do umbigo. Aprendizados da vida!
Eu sei que esoterismo não é exatamente uma
religião, mas vou contar uma experiência. Eu já fui a uma feira esotérica que
aconteceu há muitos anos em algum shopping de São Paulo, lá escolhi passar com
uma esotérica que lia o futuro por meio dos búzios. Falou tanta asneira, não
botei fé nela. Mas, disse algo importante, guarde essa informação para mais
adiante; eu perguntei se algum dia eu seria rico e ela disse NÃO. Anos mais
tarde eu passei com um amigo que lia tarot, ele disse coisas bem legais para
mim e eu novamente perguntei se eu seria rico algum dia. Outro NÃO. Em breve
retomo o assunto da riqueza.
Eu comecei a fazer uma faculdade, durei
apenas algumas semanas e desisti. Eu fui idiota, sempre quis ser jornalista,
mas por algum motivo aos 18 anos eu tive a brilhante ideia de prestar
HOTelaria. Merda feita e logo desfeita, ainda naquele ano havia a opção de
vestibular no segundo semestre. A única faculdade de jornalismo com inscrições
abertas para o segundo semestre e que eu consideraria estudar era o Mackenzie.
Mas, eu também gostava de Economia, por isso me inscrevi para o IBMEC. Como era
fato que eu passaria nos dois vestibulares, eu preferi anteceder minha escolha
antes mesmo do vestibular. Uma amiga me sugeriu apelar às cartas. Por algum
motivo eu achei uma ideia interessante. Ela comentou que uma amiga dela estava
lendo cartas e cobraria pouquinho de mim. A amiga dela em questão tinha 16
anos, havia comprado as cartas do tarot e um livro explicativo há menos de um
mês e me cobraria apenas 15 reais. Durante a consulta no quarto dela eu todo
aflito perguntei qual faculdade deveria cursar, ela então tirou as cartas e
disse “Faça Jornalismo, você terá muito sucesso e será muito feliz! Se você
fizer Economia será infeliz!”. Também perguntei se um dia serei rico com o
Jornalismo e a resposta foi NÃO.
No dia seguinte eu tinha o vestibular do
IBMEC. Uma cartomante adolescente de 16 anos me convenceu a desistir de
Economia. Dormi mais tarde e perdi o vestibular. Passei no Mackenzie e no final
do primeiro ano de Jornalismo eu tinha certeza absoluta que fiz a escolha
errada, Jornalismo não era minha praia!
Outra religião que sempre me bateu
curiosidade era a umbanda. Eu tinha um amigo que frequentava terreiro, eu
comentei da minha vontade, na verdade não era só vontade, eu tinha uma
necessidade. Eu achava que haviam feito uma macumba contra mim. Meu amigo foi
super solícito e me convidou para conhecer o terreiro dele e iria me apresentar
ao Pai de Santo que poderia descobrir se algum trabalho contra mim foi feito.
Meu amigo pediu que eu o encontrasse na
estação Santana do Metrô. Lá fui eu, quando, de repente, para minha surpresa,
me aparece ele e uma mulher ambos de batas brancas e um chapéu característico.
Porra, meu amigo nunca disse que ele era pai de santo! E o choque? Todo mundo
olhando! Eles me levaram até o carro e ao entrar na parte traseira eu quase
morri. Havia gaiolas com galinhas pretas, pombas e outros bichos. Todos vivos.
Nem te conto para que eram essas aves... Eles ainda pararam em um supermercado
para comprar algumas bebidas, frutas e outras coisas. Vejam que agradável,
domingo de manhã, eu no Pão de Açúcar com um pai e uma mãe de santo, vestidos a
caráter, fazendo compras para a oferenda do dia. E para ajudar um monte de aves
nos esperando no estacionamento. Se não morri de vergonha esse dia é porque
realmente não é possível morrer desse jeito.
Ao chegar ao terreiro mais um choque. O
terreiro era na verdade uma pequena mansão no bairro da Cantareira, região
nobre da ZN. Cheguei ao lugar e lá morava uma família, eles me mostraram de
fato o terreiro, que era o quintal da casa. Um monte de estátuas horripilantes
de madeira, velas coloridas, chão de terra. Agora sim uma expectativa minha
sendo concretizada. Na casa vivia o pai de santo mor, fomos apresentados e não
rolou uma empatia recíproca. Ele me levou até o consultório que ele lia búzios
e me pediu dinheiro para o santo. Eu não sabia que tinha que pagar, não estava
com dinheiro, apenas cartão. Pedi emprestado para meu amigo e o pai de santo
disse que o dinheiro precisava ser meu. Peguei tudo que tinha na carteira,
pouco mais de cinquenta centavos e perguntei se rolava aquele troquinho.
Rolou!!! Ele e o santo dele aceitaram. Minha primeira pergunta: “Eu fui
macumbado?”.
A resposta foi SIM! Magia negra das bem
ruins e poderosas. Quase tive uma síncope. Pior que eu sabia muito bem quem
fez. Como já estava lá e estava paga a consulta (65 centavos, mas pago!), eu
resolvi perguntar sobre a vida. O pai de santo disse que minha mãe morreria em
breve por uma doença fatal e que meu pai deveria largar a segunda família que
ele mantinha em sigilo. Minha mãe está vivíssima e meu pai vive em função da
única família que ele tem. Perdi a confiança no pai de santo. E claro, fiz a
pergunta de sempre “Eu vou ficar rico?”, a resposta também não variou. NÃO! Ele
também me disse que poderia reverter a macumba... Fiquei interessadíssimo!
Cobraria um preço amigo e eu precisava providenciar algumas oferendas. Ele me
passou a lista, era um zoológico inteiro, só faltou colocar um tigre de
bengala. Eu decidi não sacrificar animaizinhos e que um dia a macumba perderia
a força sozinha.
Eu queria ir embora daquele lugar, mas logo
iria começar o ritual deles. Repensei e decidi ver aquilo. O pai de santo mor
proibiu a minha entrada no terreiro, disse que a macumba foi forte demais e que
eu estava muito carregado. Vocês têm noção que fui expulso do terreiro de
macumba? Eu não sabia onde estava, não tinha Google Maps no meu celular, que na
época nem existia iPhone. Eu precisava esperar o ritual acabar e meu amigo me
levar ao metrô. Fiquei na cozinha com mais duas crianças, netos do mor. Eles
também não podiam acompanhar o ritual, mas sabiam o que acontecia lá.
Disseram-me que o meu amigo incorporava sempre um orixá X e que se batia,
gritava e mudava de voz. Era um pouco assustador e que apareciam “coisas” no
terreiro. Óbvio que não acreditei até começar a ouvir urros e berros, batida de
tambor e mais um monte de sons assustadores. Eu queria era chorar, bateu um
desespero, queria sair correndo para a rua e as duas crianças nem aí. Não me
importei com a calma delas e decidi segurar nas mãos delas e dizer que tudo
acabaria bem. Foram os 15 minutos mais longos da minha vida. Logo todos
voltaram, meu amigo todo imundo e com mão suja de sangue, provavelmente da
galinha preta ou da pomba. Fui levado para o metrô? NÃO! Fui convidado para
almoçar com eles, rapidamente fizeram uma macarronada e comemos todos... Eu inclusive repeti o prato e olha que o molho era à bolonhesa!
Depois dessa experiência eu coloquei o pé
no freio nessas descobertas religiosas. Já me chamaram para rituais xamânicos e
Santo Daime. Eu nunca fui, uma por medo e outra porque se no terreiro de
macumba rolou tudo aquilo, imagina em um ritual de doutrina espiritualista
amazônica? Além disso, até onde sei esse povo toma uns chás alucinógenos, tenho
medo de tomar chá de lírio e nunca mais voltar. Para não dizer que não faço
nada, de vez em quando tenho vontade de comer hóstia e vou à missa só pra isso.
A última vez o padre falou tanta merda no sermão, contou umas barbaridades que
qualquer pessoa que estudou história minimamente choraria de tristeza. Minha
mãe me impediu de levantar a mão e questionar o padre no meio da missa.
Uma única certeza meu tour espiritual me
forneceu. A certeza que não serei rico um dia. Pelo menos assim eu economizo 2
reais no joguinho da Mega Sena quando acumulada.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Conte-me um segredo seu?
Tudo caminhava na santa
paz da normalidade em minha timeline do Facebook. Fotos de viagens incríveis,
frases de autoajuda, filhotes de gatinhos, vídeos engraçados e embate político
entre petistas e tucanos. Até que sou surpreendido pela seguinte frase escrita
em uma imagem jpeg com fundo laranja "Cago no trabalho só para passar o
tempo e não ter que olhar para a cara dos colegas por 15 minutos que seja".
Essa confissão quebrou a verossimilhança do propósito do Facebook. E nem preciso dizer que fiquei chocado. Sinceridade demais choca as pessoas. Passados mais uns dias e novamente outra frase de impacto passeia pela minha timeline "Queria dar para todo mundo sem ninguém ficar me julgando. Enquanto isso, vou dando e sendo julgada mesmo". Desta vez o fundo da imagem era rosa.
Nessa altura do campeonato eu já desconfiava que essas frases não eram do meu amigo do Face, provavelmente de algum Tumblr novo, toda semana um Tumblr sensacional é lançado. Ontem eu descobri a verdadeira origem dessas frases. A fonte dessas confissões encharcadas de absoluta e perturbadora sinceridade é de um novo aplicativo chamado Secret.
O Secret funciona assim:
você faz um cadastro, podendo se conectar pelo Facebook, como qualquer outro
aplicativo social. A ideia é que você poste segredos anonimamente para que
amigos, amigos de amigos e pessoas próximas a você possam ler, curtir e
comentar, tudo também de forma anônima. Desta maneira, você pode ler diversos segredos,
interagir com eles e ninguém nunca saberá dos autores envolvidos.
Obviamente que as chances
de isso dar merda são gigantescas, dar a oportunidade das pessoas falarem o que
bem entenderem sem que haja nenhum tipo retaliação, é um parque de diversão
para gente maluca. Nos EUA esse aplicativo é bastante usado como ferramenta de
cyberbullying, hoje mesmo eu me deparei com uma confissão e dezenas de
comentários anônimos a respeito de um blogueiro que eu conheço. Comentários
pesadíssimos, ofensivos, cruéis e alguns nojentos.
Contudo, isso foi uma
exceção. Como pude conferir, o brasileiro está usando menos como objeto de
bullying e mais como fim de putaria. Oitenta por cento (esse é um dado que
acabei de inventar, assim como 90% das estatísticas que lemos por aí, que
também é outro dado da minha cabeça) das confissões têm o assunto sexo
envolvido. Inclusive li um Secret que dizia: “Os EUA transformaram este app num
grande estimulador de bullying. O Brasil transformou numa grande putaria.
BRASIL MELHOR EM TUDO!”. A mais pura verdade.
Eu consigo ver o outro
lado do Secret, não apenas como um espaço para difamação ou putaria, mas como
um espaço para se abrir. Muitos e muitos secrets são verdadeiros desabafos, eu
li sobre traumas, medos, arrependimentos, vontades e tantas outras coisas que
nós levamos ao analista e amigos íntimos. E como é possível interagir, sempre
há vários comentários de encorajamento ou de situar a pessoa à realidade.
Estou adorando ler os
segredos dos outros, quem nunca se perguntou qual história tem por de trás
daquela pessoa desconhecida que está do seu lado no metrô, esperando o semáforo
abrir ou na fila do supermercado? Não sei se sou o único anormal em ter esses
pensamentos, acredito que todo mundo tem uma boa história a contar, melhor
ainda se for um precioso segredo, não?
Fica aqui minha sugestão
para baixar o Secret, disponível na App Store e Android.
E como os segredos são
anônimos e públicos, vou compartilhar alguns que li hoje. Apenas hoje serei
fofoqueiro. Mas antes, conte-me um segredo seu para mim?
“Eu te amo, vc me ama, a
gente diz que é só amizade por medo de tentar algo sério e estragar isso. Somos
idiotas.”
“Já soltei um peido
devastador na balada e chamei todas de porcas”
“Queria gostar de putaria e fetiches mas só
gosto de amorzinho”
“Penso muito no futuro e
esqueço de viver o agora. Todo dia me arrependo disso.”
“Tô pegando um cara e uma mina e não sei com
qual quero ficar... Como lidar?”
“Colega de trabalho cagava
um bonde e fedia a agência inteira. Tive que pedir pro financeiro comprar Bom
Ar”
“Gosto de imitar um
dinossauro quando estou sozinho em casa.”
“Morro de vontade de transar com 3 ou 4
homens, ao mesmo tempo, mas me falta coragem”
“Meter chapado de maconha
é a melhor coisa do mundo”
“Sou tão gorda que vi um Secret
falando de BKT e fiquei com vontade de um Burger King Trio”
“Quando não estou pensando
em comida estou pensando em sexo”
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Existe gente de cabelo azul
Você sabe qual a sensação de andar com uma melancia
pendurada no pescoço? Eu sei! Não que eu tenha experimentado passear por aí com
o segundo maior fruto que eu conheço, mas andei com meu cabelo azul e é tudo a
mesma coisa, ao menos no quesito chamar a atenção em público.
Antes de falar dessa sensação eu vou fazer um prefácio da
minha história com cabelos coloridos. Perguntam-me milhões de vezes por que eu
tinjo meu cabelo com cores incomuns, não tenho uma resposta, sei que não é por
questão de estilo, pertencimento de algum grupo ou porque vi em algum lugar e
achei bacana, eu apenas gosto desde sempre, just it.
Ainda muito novo eu já tinha essa vontade e só fui
concretizá-la pela primeira vez aos 16 anos. Assistindo ao filme Brilho Eterno
de Uma Mente Sem Lembranças, meu filme predileto ever, descobri que era possível ter cabelos da cor
que eu bem entendesse. Clementine, a protagonista do filme, tinha cabelos
coloridos, ela aparece com os fios laranjas, vermelhos, azuis e verdes, agindo
sempre com naturalidade. Não usava roupas excêntricas, não se jogava em
inferninhos, não tinha tatuagens mil, era apenas uma pessoa sensível e com um
olhar mais poético. O cabelo colorido era apenas um detalhe e também uma
maneira de se expressar de acordo com seu momento de vida da personagem.
Voltando ao meu prefácio pessoal, ao ver o cabelo da Clem eu
percebi que era possível para mim também e decidi pintar o meu. Não fiz no dia
seguinte, como eu gostaria, porque na época eu estudava em uma escola
extremamente rígida e conservadora que proibia os alunos de terem brinco,
piercing, usar roupas “inadequadas” e até mesmo alguns tênis eram censurados.
Não preciso nem dizer que eu era o terror daquela escola quebrando regras quase
que diariamente... Esperei até o último dia de aula e fui direto para a casa da
minha amiga Bruna Ficklscherer, que na época era uma menina emo, ouvia rocks
depressivos, usava maquiagem pesada, andava com ursinhos de pelúcia e tinha a
franja cor de rosa. Ela sabia dos paranauês de descolorir e pintar. Comprei pó
descolorante na farmácia (mal sabia eu que esses são para descolorir pelos e
não cabelo) e uma tinta nacional com um único tom de azul. Meu cabelo ficou
lindo e nunca estive tão realizado com a minha aparência. Choquei minha família
e me fizeram prometer nunca mais pintar... Tão logo a tinta azul saiu, já
emendei com um laranja, depois roxo, laranja de novo, roxo de novo e verde
limão fluorescente que brilhava no escuro, este último era uma tinta importada
e realmente muito boa. Recentemente a vontade de tingir o cabelo voltou, em
dezembro pintei meu cabelo de branco, este ano de laranja e voltei para o azul
claro porque o primeiro azul foi tão rápido que sentia que algo não tinha sido
vivido até o fim, foi um azul interrompido.
Sabendo um pouquinho da minha história colorida capilar eu
posso voltar ao ponto inicial. Como é andar na rua com cabelo azul. Então, é
terrível! Como vocês puderam notar acima, em nenhum momento eu digo que pintei
meu cabelo para me mostrar ou ser visto. Eu sou tímido, talvez não demonstre,
mas sou tímido e envergonhado. Sempre que mudo de cor de cabelo e preciso
encarar a sociedade é um sacrilégio gigantesco para mim. Na maioria das vezes
recruto alguém para me acompanhar e andar de mãos dadas comigo, normalmente
aperto a mão o máximo de tão tenso que fico.
Pintei meu cabelo sábado à noite, o serviço terminou após
uma da manhã. Peguei um táxi e fui direto para uma balada bem descolada, ainda
assim minha cabeça virou um imã de olhares. No dia seguinte uma pessoa X
comentou no meu Instagram “Eu te vi ontem na balada, só dava você e seu cabelo
na pista!”. Ter um cabelo azul, verde, roxo ou qualquer cor diferenciada que
seja, não ter permite anonimato ou discrição. Ainda de madrugada eu decidi ir
fazer um lanchinho na Bella Paulista. Eram 4 da madrugada, o lugar borbulhava
de pessoas, havia fila de espera por mesa. Entrei e fui direto ao toalete.
Enquanto atravessei o salão da padaria eu ouvi o zumzumzum das conversas parar
por um segundo e retornar em seguida. Meu cabelo não é merecedor de um minuto
de silêncio, mas foi capaz de silenciar dezenas de pessoas eufóricas por 1
segundo. Desfaleci de vergonha.
É de dia e na rua que as reações das pessoas são mais impressionantes.
Esperando o semáforo abrir uma menininha ao meu lado cutucou a mãe e gritou apontando
para mim “Mãe, mãe, existe gente de cabelo azul!”. Como nossa distância era de
menos de um metro quem desfaleceu de vergonha desta vez foi a mãe. Andei por
metade da Paulista e o imã em cima da minha cabeça não cansava de roubar
olhares e para meu desespero eu não estava usando óculos escuros.
Notei uma grande evolução da humanidade entre o cabelo verde
e o atual azul. Quando eu tinha cabelo verde limão fluorescente que brilhava no
escuro era normal ouvir desconhecidos me chamando de qualquer coisa verde, de
papagaio e até impropérios. Já estou azul há 5 dias e até agora nenhuma reação
falada. Talvez imaginem que fiz pelo clima de Copa do Mundo e é socialmente
aceitável algumas extravagâncias verde, amarelo e azul neste momento. Hoje
mesmo vi um carro cujas rodas foram pintadas de verde e amarelo.
O pior de tudo não são os olhares, pois são realmente ossos
do ofício e não repreendo ninguém, o pior são os conhecidos que sempre fazem
questão de falar “Nossa, você está parecendo isso. Você está parecendo aquilo!”.
Sinceramente não estou parecendo porra nenhuma de Smurf, de Blue Man Group, com
o Pokémon tal ou o Bigode do Cotonetes. Qual a necessidade de me comparar com
algo? Como normalmente são amigos ou conhecidos que falam isso eu apenas
sorrio, mas um sorriso nada amigável, para a pessoa se tocar que não está sendo
gentil comigo. Então regra número 1 de convivência com alguém de cabelo
colorido, não se esforce a compará-los com alguma coisa, não será engraçado,
será patético. Por ventura se a pessoa realmente estiver parecendo alguém por
conta do cabelo, não se reprima, pode falar, mas vou logo adiantando,
dificilmente alguém de cabelo verde estará igual a um papagaio, ok?!
E como eu me sinto de cabelo azul? Lindo, feliz, fascinante,
radiante, esplêndido, gorgeous! De vez em quando eu até esqueço a cor do meu
cabelo, quando passo na frente do espelho e vejo aquele azulão acima das minhas
sobrancelhas eu sorrio para mim mesmo feliz com o resultado. Não existe nada
mais gratificante que estar bem consigo mesmo.
E ainda me sinto responsável por combater o tédio, o vazio,
o medo e a falta de imaginação das pessoas. Pode parecer responsabilidade
demais para um mísero cabelo, mas falo de atitude e cor na vida das pessoas.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
elevação espiritual
Antes de ir trabalhar eu li uma crônica da Martha Medeiros
que relatava a raridade que é parar e olhar nos olhos das pessoas, ser gentil
com estranhos e dar uma pausa nessa loucura que é a vida na cidade grande.
Terminada a crônica prometi a mim mesmo estar mais atento e
não me contaminar com a naturalidade do modo automático que a vida nos
propicia. Em outras palavras, ser mais empático com os conhecidos e
desconhecidos.
Há poucos minutos eu estava andando pela calçada quando um
senhor do outro lado da avenida me grita pedindo para esperar. Imediatamente
percebi que era minha grande chance de colocar em prática minhas decisões
matutinas. Esperei calmamente o semáforo abrir e ele caminhar até mim
"seria uma informação de onde fica tal rua ou seria um pedido de ajuda
financeira?".
O senhor chegou até mim, fez questão de me cumprimentar com
a mão (havia prometido olhar nos olhos, ser gentil e ouvir, essa coisa de toque
físico não estava no script, mas vamos lá...) e falou com certa dificuldade,
parecia doente e logo imaginei que era dinheiro que ele precisava. Não entendi
todas as palavras do seu pedido, ele estava um pouco confuso, fui pescando
"eu + doente + barriga + dor + médico + pé descalço + barriga". Não
consegui montar uma frase que fazia sentido usando essas palavras e nessa
ordem, então pedi que ele repetisse. Prestei mais atenção e com espanto
perguntei "O senhor quer que eu coloque meus pés descalços em sua barriga
porque seu médico lhe receitou isso?". Sim, era esse o pedido dele!
Eu procuro incessantemente elevação espiritual, mas isso foi
demais para mim.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
A entrega a um novo amor
Tudo começou com um Starbucks.
Desde o início eu disse que não queria, que estava muito bem
sem, que me sentia pleno o suficiente para seguir minha vida sozinho, sem ele.
As visitas ao Starbucks começaram a ficar mais frequentes
que eu desejava. Frappuccino com base creme ou chocolate quente desta vez? A
troca de olhares mais intensa. Acho que
Frappuccino! Quando dei por mim, o desejo já estava despertado.
Eu repetia para mim mesmo as vantagens de não me entregar.
Todos os argumentos eram perfeitamente lógicos e compreensíveis.
Em ocasiões especiais eu me permitia o desfrute. Afinal de
contas, eram apenas em ocasiões especiais, não era frequente. De repente
comecei a criar ocasiões que nada tinham de especiais, eram desculpas
esfarrapadas dadas pelo meu subconsciente.
Há poucas semanas eu chutei o balde, quero mais que se dane
tudo isso. Eu vou correr para o abraço e me deliciar com meu novo amor. Uma
paixão antiga, quase uma paixão platônica dos tempos que eu ainda era criança.
Seu cheiro sempre foi meu predileto, a ponto de fechar os olhos quando estava
por perto. Não sei se é um caminho que tem volta, mas estou envolvido pelo
café!
Aos 6 anos, na casa da minha avó paterna, eu decidi que não
gostava de café. Motivo? Sei lá, apenas decidi. Nunca mais tomei, apesar de ser
meu cheiro predileto desde meus primórdios. Já adolescente decidi tomar uma
xícara porque insistiram muito. Passei mal. Anos depois em uma reunião na
B!Ferraz, uma agência de promoção de São Paulo, eu decidi aceitar uma xícara de
café para não fazer desfeita e porque queria parecer confiável, eu precisava
fechar negócio com eles. Desta vez foi menos traumático e decidi que daqui em
diante apenas tomaria café em xícaras estilosas e sendo em agências cools. Para
meu desespero, virou rotina ir para agências cools e conhecer xícaras estilosas...
Mas, nunca gostei de café, sempre aturei com muito pesar.
E cá estou, sem visitar agências e volta e outra tomando
café, e o pior, tomando café por prazer, por iniciativa própria e sem o
objetivo de fechar um negócio. Eu sei que café amarela os dentes, eu sei que
também pode te deixar dependente psicologicamente e ainda assim nutro essa
vontade. Ontem mesmo eu pensei “Tenho café em casa, coador e garrafa térmica,
por que não procurar no Google como fazer café?”. A coerência logo voltou e abortei a ideia.
Café agora só de vez em quando e pode até ser em copo plástico, como foi agora.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
A fórmula mágica do amor
Relacionamentos é sempre
uma pauta de conteúdo, experiências e opiniões infinitas. Deve ser o assunto
com mais frases prontas que fazem algum sentido. "Quem muito escolhe,
acaba sendo escolhido", "Quem eu gosto não gosta de mim, quem gosta
de mim eu não gosto", "Nunca transe no primeiro encontro, tem que se
valorizar para ser valorizado", "Não procure, seja encontrado".
Uma infinidade de fórmulas prontas para serem colocadas em prática e conquistar
um desejado relacionamento.
Há pouco mais de um ano eu estava disposto a tentar todas essas, na verdade eu já usei muitas das famosas fórmulas em algum momento da minha vida. Eu queria namorar, por isso em todas as minhas oportunidades eu deixava minhas intenções bem claras, mesmo batendo de frente com aquela fórmula bem popular e a mais cuzona de todas "Finja não estar interessado, seja difícil". Vendia meu peixe, mostrando que eu era digno para ostentar o título de namorado, fazia atividades interessantes para ter assuntos surpreendentes, até aprendi a fazer arroz de forno, um prato que requer muito mais dedicação e talento do que preparar o manjado “pasta ao molho X”, que nada mais é macarrão com molho pronto.
O mais engraçado que
quando eu demonstrava meus objetivos não conseguia evoluir as minhas paqueras.
Chegou um momento que pensei, quer saber, vou trepar com todo mundo e foda-se,
se possível no primeiro encontro. Repentinamente eu me vi em um relacionamento,
não tinha título, não queria títulos ainda, como foi tudo sem planejamento, não
sabia como chamar aquilo. Dois meses depois de passar dormir juntos pelo menos
3x por semana, almoçar todo domingo com meus sogros, eu pensei "estou
namorando!", oficializei no dia dos namorados e the end parte 1 da
história.
Hoje estou solteiro faz poucos meses e não quero envolvimento sentimental. Primeiro porque terminei um namoro recentemente e não acredito em amor após término recente e outra porque assim como Hazel Grace, personagem célebre do John Green, sinto-me uma bomba relógio prestes a explodir. Envolvimento sentimental seria apenas uma burrice. Eu estou solteiro, mas graças a Deus está chovendo muito na minha horta, o que me possibilita escolher os melhores frutos para a minha dieta (beijinho no ombro para vocês!!). Invariavelmente quando conheço alguém falo meu discurso "não busco relacionamento, quero apenas colecionar bons momentos", um eufemismo que cai muito bem nesta ocasião. Deixo claro, que a ideia não é prolongar, telefonas no dia seguinte não são aconselháveis e ainda assim tenho uma pequena lista de nomes interessados em algo mais concreto e algumas declarações ouvidas que eu daria tudo para ter ouvido ano passado quando procurava por um amor.
Qual é o problema da humanidade? Digo que quero amar e que sei fazer arroz de forno e não tem uma alma querendo dormir de conchinha comigo e me dar apelidos carinhosos e ridículos. Digo que vou explodir, que não quero nada e, ainda assim, preciso ser meio babaca distribuindo gelo ou não responder Whatsapp.
Realmente relacionamentos são complexos. Fórmulas prontas não existem.
4, 3, 2,1. BUM!
domingo, 27 de abril de 2014
O voo da borboletinha
- Senhorita, com licença, posso te tocar?
- Humm... Melhor não, se você me tocar, todo mundo também vai querer.
- E tirar foto?
- Claro!
- Você rebola para mim?
- Tá!
E lá foi a borboletinha voar, quer dizer, rebolar para mim.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Deus existe
Enquanto eu chorava cortando cebolas para o almoço de
domingo, minha tia septuagenária e carola de carteirinha, contava-me como a
missa naquela manhã foi bonita. Eram lágrimas e silêncio da minha parte,
entusiasmo e brilho nos olhos da parte dela. Em algum momento daquele relato clérigo
ela me diz “Por isso que você tem que ser uma pessoa boa. Deus ajuda quem é
bom!”.
Sem deixar de cortar e olhar minhas cebolas eu disse com a
maior naturalidade do mundo que Deus não existia. Ela deu um grito assustado e
fez uma cara de total reprovação. Se eu tivesse dado um tapa em suas fuças ou
cuspido em sua cara certamente ela não teria ficado tão horrorizada quanto com
o que acabara de ouvir. Imediatamente ela protestou e disse que Deus existia
sim e aquilo que eu estava falando era um pecado gravíssimo! Parei de cortar a
cebola, olhei para a cara dela com um pouco de desdém e disse pausadamente “De-us
não e-xis-te!”.
Foi um auê. Heresia para minha tia é considerado o pior
defeito que um ser humano pode ter. Ela foi provar para mim que Deus existia.
Disse que quando minha avó estava próxima do falecimento ela viu Deus no
hospital. Eu respondi: “Ela estava doente fazia meses, sob efeito de remédios
fortes, ela não viu Deus, foi apenas uma alucinação. Igual a Xuxa, ela viu
duendes, mas ela estava muito louca! Igual um amigo meu que quando toma uns
chás mineiros ele jura que está tocando violão com John Lennon, mas o Lennon
não existe mais!”. Minha tia afrontadíssima não se deu por convencionada e
disse que iria me contar uma história que comprovaria que Deus existe.
Eis a história: Deus de vez em quando sai pela rua para
testar as pessoas. Uma vez, há muito tempo, quando era velhinho, ele estava
vestido de mendigo e parou em uma casa para pedir comida. A senhora que morava
lá tinha acabado de matar uma galinha, quando viu alguém se aproximando colocou
uma bacia por cima e atendeu a porta. Deus então perguntou se ela não tinha uma
galinha para dar de comer, ela prontamente disse que não, só tinha uma galanga.
Deus então disse: “Então galanga será!” Nesse momento a galinha se transformou
em uma galanga e começou a andar.
Nesse momento eu já tinha parado de cortar o tomate e
perguntei que raio de coisa é essa galanga. Ela disse que é galanga é galanga,
oras bolas. Insisti mais um pouco e recebi a resposta “galanga é tipo uma
tartaruga”. Nesse momento o mundo se descortinou diante de mim, agora tudo fazia
sentido. A galinha estava escondida embaixo de uma bacia, Deus viu a cena e a
mulher mesquinha disse que não, aquilo era uma galanga/tartaruga/jabuti, então
ele fez a “vontade” da mulher e transformou a galinha em um quelônio! A mulher
ficou sem o alimento e aprendeu a não ser mesquinha e a minha tia ganhou uma
história para provar as pessoas que Deus existe!
Depois de um surto de gargalhada, no qual minha tia não achou
muita graça, eu admiti que fatos são fatos e voltei a acreditar em Deus.
Antes eu confidenciei que quem me convenceu que Deus não existe foi meu irmão,
que estava na sala, e se eu fosse ela iria contar a história da galanga para
ele. E lá foi a tia Cidinha inspecionar se meu irmão acreditava ou não em
Deus...
Para adicionar, segundo o dicionário, galanga é uma erva
chinesa. Como essa história provavelmente veio da Itália, é possível que houve
algum erro de tradução para o português ou é algum neologismo do parte da minha
tia ou de quem contou para ela.
Por ora, eu acredito em Deus, não sou cristão e na
sexta-feira da Paixão irei comer peixe, afinal de contas, cresci em uma família
católica e essa minha tia me levava à missa.
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